Causos de Batayporã

 

Do Livro Causos de Batayporã

Mais uma, envolvendo o Custódio e o Aílton. Pra começar, o negão era medroso como ele só. Numa certa noite, saíram pra uma biboca, atrás de um forró. Lá pros lados do Chambó. O Custódio resolveu voltar mais cedo mas o Aílton, assanhado, ficou pra trás, pois tava interessado num rabo de saia, com planos de arrastar as asas atrás de uma namorada.

Quando chegou em casa, que ficava onde hoje mora o Valério, Custódio lembrou-se de alguns detalhes. O Aílton, cheio de frescura de ser asseado, sempre escovava os dentes, antes de dormir. E era medroso. Que fez o Custódio? Sabendo exatamente o que o amigo ia fazer, Custódio preparou umas coisas, ajeitou o travesseiro, imitando um corpo na cama. Depois, pegou um lençol e subiu no caixão do poço, onde pacientemente, ficou aguardando.

Naquele tempo, não tinha energia elétrica, as ruas eram escuras. Entre eles, havia uma espécie de senha, quando um ia chegando, assobiava para avisar o outro, que respondia pra dizer que tinha ouvido, e tudo, bem de longe. Custódio, ouvindo o fiu-fiu do Aílton, agüentou firme. Viu-o entrar na casa, gracejando, pedindo pra que ele não inventasse de assusta-lo. Ao ver o vulto na cama, comentou:

Ah, já to dormindo, hem, nego veio. Pêra aí que eu já volto. Tudo saiu como o Custódio havia previsto. Aílton, já de calção, pegou uma caneca, o tubo de pasta e a escova, dirigindo-se despreocupadamente até o poço. Quando chegou perto, levantou os olhos e viu aquele vulto branco. Foi um berro tão grande, que acordou todo mundo. O caneco foi parar longe, no quintal onde hoje mora o Terra Seca. O coitado Aílton saiu despinguelado rua afora. Muito tempo depois, quase uma hora, lá vem o Aílton, fiu-fiu daqui, fiu-fiu dali, cauteloso. Depois, fez questão de ir mostrar ao Custódio o que havia acontecido, onde tinha visto o bicho. Mostrando-se indignado por ter sido acordado por uma besteira, Custódio ainda argumentou que o amigo tava vendo coisas, que era fruto da imaginação dele e coisa e tal. Tubo de pasta e escova mesmo, que é bom, só no outro dia foi que Aílton encontrou , pois procurar de noite, com aquela escuridão? Sei!



 

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Esperança

Na Serraria Esperança, que hoje não existe, mas que chegou a ser uma pequena cidade, com mais de trezentas famílias, tinha de tudo. Marcou época, na região. Tinha baile nos fins de semana, cada forró animado que dava gosto e, de vez em quando, quando a vontade apertava, saía forró no meio de semana.

Teve também um grande time de futebol e muitas pessoas daquele tempo ainda moram por aqui. Mas, dentro daquela rotina, os operários que trabalhavam no pesado, nos escritórios, motoristas, gerentes, enfim, todos eram muito unidos, não havia distinção. Um dos pontos de encontro deles, o principal, onde toda tarde, infalivelmente, se reuniam, era o boteco do Almeida. Lá se batia longos papos, tomavam umas pingas meio rareadas, ia-se pra casa, tomavam um banho, jantavam, dormiam, serviço no outro dia... a rotina. Mas, interessante era ver o pessoal, quando voltava do boteco de fogo, meio caú, cercando frango. E dificilmente caiam!

O Zé Luiz, gerente da Esperança, tinha um cachorro que era a relíquia da família. Um policial chamado Schimithi (com pronúncia abrasileirada, mesmo). Toda tarde, ia esperar o dono, fazendo festa, quando ele vinha do boteco do Almeida. Numa dessas, depois de uma conversa mais animada com o Mário da Esperança, Zé Luiz bebeu ligeiramente acima da conta, quando foi pra casa, tava toureando santo. Pra chega em casa, tinha que andar por um pequeno aclive, depois chegar à varanda alta. Havia chovido e o chão tava liso que nem sabão. Chegar até perto dos degraus sem cair foi realmente um ato heróico. Mas aí, não deu mais para segurar. O diabo do chão tava sendo balançado demais pela pinga e, tropeçando no degrau, escorregou de vez e caiu. Nisso, mais que depressa, tratou de se levantar, que não era de ficar no chão, e, para disfarçar, soltou um grito bem alto:
Sai, Schimithi!!!

Certamente, pensou Zé Luiz, a família acharia que o cachorro o havia atrapalhado. Mas não foi bem assim. Dona Labibes e as crianças estavam na cozinha, jantando, quando ouviram o grito de Sai, Shimithi!, e estranharam, surpresos, quando o pobre Shimithi, que estava deitado justamente debaixo da mesa, ao ouvir a voz do dono, levantou-se indiscretamente, atravessou lampeiro o corredor, a sala, e foi encontrar-se com Zé Luiz. Ninguém fez comentário nenhum, lógico, para não chatear o chefe da casa, mas, às escondidas, concluindo que ele levara um tombaço, as crianças e a mãe não contiveram gostosas gargalhadas.




 

 

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Do livro Causos de Batayporã

Os rapazes solteiros moravam em repúblicas, principalmente aqueles que não tinham parentes por perto. Lá, eles queimavam a lata, lavavam suas roupas, quer dizer, não era assim... lavar a roupa!!! Lavavam como Deus mandava, uma lavada tão matada que dava vergonha!

Numa dessas república, moravam, entre outros santinhos, o Custódio (você sabe, aquele que, quando jogava bola em Bataguassu, tinha o apelido de Costela), e o Ailton, que trabalhava no escritório da Cia. Viação. Numa tarde, conversando, fazia um calor daqueles, o Ailton fez uma proposta:

__ Você duvida, Custódia, que eu seja capaz de sair pelado lá no meio da rua?
__ Duvi-de-odó __ imediatamente o Custódio atiçou! Naquele momento não era nem muita vantagem, já que havia muito menos gente que hoje, mas, é claro, sempre podia acontecer de passar alguém, não é mesmo?
__ Quer perder meia dúzia de cerveja gelada, se eu sair peladinho da silva?
Custódio aceitou a proposta, com um sorriso meio estranho nos lábios. O Ailton, (não é esse Ailton que é prefeito de Bataguassu, o Cuiabano).

Pois bem, certamente com muita sede, resolveu ganhar a cerveja. Tinha acabado de tomar banho, tava apenas com uma toalha amarrada na cintura. E, claro, pra não ficar feio, também, uma vez que tinha sido ele mesmo quem havia insultado o outro, resolveu mostrar a coragem. Cautelosamente, colocou a cabeça pra fora, olhou prum lado, olhou poutro... ninguém. Jogou a toalha e saiu correndo, em traje de Adão, ficando no meio da rua, se rebolando, fazendo fusquinha, com ares vitoriosos.

O Custódio, sorrindo, encolheu os ombros, como dizendo: Ok, você venceu! Mas, quando o Ailton foi desconfiar, já era tarde. Sempre sorrindo, o Custódio... blam! Fechou a porta, deixando o Ailton do lado de fora! Foi um sufoco.

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Do livro Causos de Batayporã:

Falando de circo, de novo: Se por um lado a população ficava animada com a chegada dele, de outro, era o desespero das lagartixas. Não, não se estranhe! É que a molecada tinha uma crença: Para desmascarar os hipinotizadores, nada melhor que entrar no circo com o rabo de uma lagartixa no bolso. Aí, aquele negócio do galo arrastar uma tora amarrada na perna apareceria como era, na verdade: um simples sabugo de milho, nada de tora! E aquela do homem segurar um jipe com os dentes, também era um truque! Coisa da crendice das crianças, que é que vai contra? Pois não tem gente ainda hoje, que bate pé firme e fala que aquele negócio do homem ir à Lua é truque de televisão, conversa pra boi dormir? Pois é, gente grande, velho...
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Cabra Velho

Uma do Cabra Velho: Seu Henrique, gerente da Cia. Viação, chegou cedo na Serraria e avisou ao pessoal que iria viajar. Cabra Velho, guarda noturno, vinha chegando. Estava saindo do serviço. Ouvindo que o gerente estava pra viajar, quis falar alguma coisa, mostrar-se preocupado. E disse: Seu Henrique, eu, se fosse o senhor, não viajava. Sabe o que aconteceu? Essa noite eu sonhei que o senhor tinha morrido num desastre!

A turma pegou no pé: Ah, quer dizer, então, que você ta dormindo em serviço, hem?

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Catraca

Outra rápida, do Catraca. Um dia, ouvindo comentários de que tava dando muito peixe e gostando como ele só, de uma boa pescaria, matutou um plano: Fez que tentava erguer um pranchão e soltou um grito, começando a gemer, lamuriando-se. O que foi? O que não foi? Chega o seu Diogo, o patrão. E o Catraca explicou:

Seu Diogo, não vai dar pra trabalhar mais hoje! Deu mau jeito no meu braço! Não dá nem pra fazer assim, ó! E erguia o braço várias vezes, pra mostrar o que não podia fazer. Claro que a desculpa não colou.



Do livro Causos de Batayporã

O time foi jogar em São Pedro do Paraná. O almoço foi na casa do Prefeito, um homem muito educado, atencioso. Os jogadores e dirigentes foram servidos pela esposa e filhas dele. Havia muitas gaiolas de passarinhos espalhadas por uma enorme varanda e o Luiz Bertoni, que também gostava muito de aves, ficou admirado, apaixonado.
_ Você gostou desse?, perguntou o Prefeito, quando Luiz parou em frente a um coleirinha muito bonito. _ Pois pode levar, é presente!
O Luiz Bertoni nem acreditou! Ficou tão contente, entusiasmado, que prometeu:
_ Pois, quando o senhor for a Batayporã, vou dar ao senhor um bicudo que é uma jóia, canta como o diabo, e além de tudo é um ótimo chama!
Muito que bom! O tempo passou, passou... e um belo dia, o time de São Pedro do Paraná veio pagar o jogo. Logo de manhã o Luiz já ficou meio assim, não queria jogar, não dava explicações... e acabou não jogando. É que ele havia se lembrado da promessa e temia que o Prefeito viesse lhe cobrar o bicudo, maldita boca! Por que achara de prometer? Mas, azar o seu, resolveu arriscar e assistir o jogo, meio de longe, e acabou dando de cara com o Prefeito, que foi logo lembrando:
_ E o meu bicudo? Ta no jeito?
_ Claro, Prefeito, ta lá em casa, à sua disposição! Depois do jogo entrego prô senhor, no hotel.
Ficara sem jeito, ainda mais que o homem tinha sido muito prestativo e atencioso com eles. Mas, e agora? Desfazer-se do seu bicudo de estimação? Ficou pensando, meio jururu. Depois que o jogo terminou, já havia descoberto um meio de sair numa boa, da enrascada. Foi para casa e chamou um garoto, o Edson, filho do finado Chico Alfaiate, esse mesmo Negão que hoje joga bola com a turma. Pois bem, chamou-o e o instruiu:
_ Escute aqui. Preste bem atenção. Vou lhe dar cincão, pra fazer um favorzinho pra mim, ta certo? Você vai pegar essa gaiola vazia, leva-la até o hotel do seu Jorge, onde ta parado o time que veio jogar aqui hoje. Chegando lá, pergunte pelo Prefeito e faça uma cara triste, dizendo que o passarinho fugiu, escapou! Mas agüente firme, ta certo?
O Edson, menino de tudo, pegou a gaiola vazia e fez tudo direitinho. Chegou no hotel, perguntou pelo Prefeito e explicou que o seu Luiz tinha dado uma gaiola com o passarinho, um bicudo cantador, que ele só... que era pra dar para o senhor Prefeito... mas que no caminho, acho que a gaiola abriu sozinha, seu Prefeito, eu não vi... e o passarinho fugiu sem eu perceber... nem deu tempo de pegar, bem que eu ainda tentei correr atrás dele, e coisa e tal.
Mas, como jogador de bola é bicho do cão, O Zé Mustafá e os outros, além do então Prefeito Alcides Sãovesso, começaram a tirar um sarro pra cima do garoto, dizendo que ele havia soltado o passarinho de propósito... No começo, Edson ainda tentou agüentar firme, mas abriu as pernas e acabou confessando o plano, justo na hora em que o Luiz tava chegando! Imagine o vexame!


Do livro Causos de Batayporã

Sem muita conversa mole, que quem conversa demais dá bom dia a cavalo, vamos a outro causo. Os circos de hoje são luxuosos, cheios de bichos, artistas internacionais e cobram o olho da cara, por isso mesmo não é qualquer um que pode entrar. Mas, aquele tipo de circo que todo mundo do interior conhece, vinha muito a Batayporã. Claro que não era nenhum Orlando Orfei, né?

Não tinha pulgas amestradas, mas eram daqueles circos gostosos, que quando chegava à cidade, a primeira providência era o palhaço sair pelas ruas, nas suas grandes pernas-de-pau, e, com a molecada formando o cortejo, puxava o coro: Hoje tem marmelada? Tem, sim senhor! Hoje tem goiabada? Tem, sim senhor! E anunciava o grande espetáculo num megafone todo amassado. E, à noite, ficava lotado, as tábuas do girau envergada de tanto peso!

Num desses circos, levavam um espetáculo de luta livre, e aconteceu um episódio marcante. Antes da luta principal, onde o internacional Panterão (nascido no interior de São Paulo, claro), desafiava o não menos internacional Maciste (cá entre nós, mineiro). Havia sempre as lutas preliminares e o apresentador convidava pessoas da platéia pra lutar. E as pessoas iam mesmo, participavam, eram aplaudidos. A última grande lembrança desses circos, foi a grande luta entra o Picão e a Pantera Negra, naquele circo que ficou montado no quarteirão onde hoje fica a Escola Jan Antonin Bata, se bem que tenha sido uma luta bastante rápida, durando apenas oitenta e seis tombos do Picão. Mas, voltemos à noite em questão.

Circo lotado, o puleiro bem perto do picadeiro. Primeiro lutaram o Osvaldo Monteiro e o Moacirzinho da Sapataria, depois outros dois, sob o entusiasmo e os gritos da torcida. Geralmente, e de propósito, o Juiz dava as lutas como empatadas. Em seguida, lutou o Jorginho do hotel, contra o Bugiu. Eles eram rapagões fortes e a luta foi bastante animada, uma queda daqui, outro tombo ali, os dois fungando, resfolegando, dando rabo de arraia...Algum tempo depois, você sabe, como não eram profissionais, cansaram um pouco. E ficaram ali no chão, abraçados, ofegantes, cada um atento aos movimentos do outro, procurando recuperar o fôlego. Nisso, todo o circo fez aquele silêncio de expectativa, à espera do desfecho. O Jorginho, mais veiáco, certamente percebendo que o Bugiu deu uma relaxada, tentou tirar proveito, tentando pega-lo desatento. E aplicou um golpe esperto, dando um forte apertão na barriga do adversário. Aí é que veio o desfecho: A arrochada foi tão forte no vazio do Bugiu e o resultado foi ouvido: Puuuummmm!!!! O peido foi ouvido por toa a platéia. Pra que! Fim da luta, o circo quase veio abaixo, uma gargalhada geral e um ataque de riso em todo mundo, menos do desatento lutador!

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Colírio

Pimenta nos olhos dos outros é colírio. O Zé Mustafá gosta muito de contas as lambanças dos outros, é cheio de histórias dos amigos, muitas delas que ele próprio tratou de preparar. Mas tem uma dele que você vai ficar sabendo. Foi um belo jogador de futebol, o Zé. Aliás, era mais magro que o seu irmão Laurindo. Abrindo um parêntese, sabe como os dois eram chamados no tempo áureo em que jogavam futebol? Pelado e Peladinho. Mas, vamos em frente. Quando parou com a bola, Zé Mustafá foi engordando, engordando, passando muito dos cem quilos. Até que a diabete chegou forte e dai pra frente foi sempre uma briga com o Dr. Jamil lhe proibindo isso, proibindo aquilo, como manda o regime.
Algumas proibições ele obedece, mas outras, não tem jeito, que ninguém é de ferro, não é mesmo? E não adiantava cartear a marra, que uma cervejinha de vez em quando, quem é que resiste? Como sintoma de diabete, a pessoa fica um mijão, toda hora tem que ir ao banheiro. Então, principalmente à noite, é um tal de levantar pra ir ao banheiro... Zé Mustafá às vezes levantava até cinco, seis vezes por noite. Numa dessas, chovia muito e algumas goteiras obrigaram o Zé e Dona Nice a mudar alguns móveis de lugar e justo no quarto deles havia uma goteira enorme que os obrigou a mudar a cama bem lá pro canto, junto à parede. Todo mundo que conhece o Zé, sabe do seu espírito, sua personalidade: Ele ta sempre encontrando o lado engraçado das coisas, ta sempre matutando alguma gozação, uma ou outra observação aqui e ali.
Muito bem! No seu relacionamento em casa, era a mesma coisa. Numa dessas levantadas para ir ao banheiro, Zé Mustafá, que não costumava acender as luzes pra não incomodar a esposa e os filhos, e nem era preciso, pois conhecia cada recanto da casa, voltava para o quarto, era por volta das três horas da madrugada, cismou de aprontar uma de assustar Dona Nice, que dormia profundamente.
Procurando não fazer barulho, entrou no quarto, pé ante pé... e se jogou, como quem pula de mergulho, para cima da cama.Mas, aconteceu o seguinte: Esquecera-se completamente de que antes de se deitarem, haviam mudado a cama de lugar. Resultado: Estatelou-se no chão de cimento, caindo sobre as bacias e panelas que colocaram para segurar as goteiras, fazendo um barulhão dos infernos, assustando todo mundo.
_ Que foi isso, José? Perguntou. Só então, pobre do Zé, foi que lembrou-se, gemendo e esfregando os joelhos. Passou dois dias mancando...

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Cantada

Você vai saber agora de um caso verdadeiro, mas nos permitirá omitir os nomes dos personagens. E compreenderá. Certa vez, um compadre, não resistindo aos encantos da comadre. Mulher bonita, popular, passou-lhe, com o perdão da palavra, uma cantada. A comadre desconversou, achou que era brincadeira, tinha uma amizade pelo compradre e coisa e tal... Mas, um belo dia, começou a perceber que o danado do compadre estava falando sério, mesmo! E, mulher fiel, contou tudo ao marido. O esposo combinou um jeito de dar um esfrega no galã. Ela que convidasse o compadre a vir visita-la.

_ Pois bem, compadre – disse ela quando recebeu outra proposta. _ Venha em casa tomar um café, amanhã à tarde, quando meu marido estiver na roça.
Dito e feito. No outro dia, na hora combinada apareceu o compadre galã, todo perfumado, roupa limpa, brilhantina no cabelo. Sorridente, a comadre o recebeu e disse que esperasse um pouco que ela logo voltaria. Em seguida, saindo da sala, ela fez um sinal ao marido que aguardava, escondido. Então, armado com uma tremenda cartucheira de dois canos, o esposo entra na sala, onde o compadre esperava. Foi o maior susto da vida do galanteador. A voz sumiu, as pernas começaram a tremer feito gelatina e o suor minava nos poros. Por fim, movido pelo desespero, o compadre ajoelhou-se ma frente do marido, juntou as mãos e implorou:
_ Pelo amor de Deus, compadre! Não me mate! Se o compadre matar, ta matando o menino Jesus!
Felizmente pra ele o marido não o matou. Aliás, está vivo até hoje. Apenas se pirulitou da casa e pelo menos, que se tenha conhecimento, naquele momento ele encerrou definitivamente a mal iniciada carreira desse negócio de cantar.

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Sonrisal

 

A Maria havia chegado de Pongaí, São Paulo. Moça muito bonita, trabalhava na farmácia do seo Antoninho. O Zé Catraca, rapaz solteiro, apaixonou-se por ela, mas havia um porém: Faltava aquela coragem de chegar para uma conversa franca, pedi-la em namoro. A paixão o obrigava a sair mais cedo da roça, tomar banho e ficar passando várias vezes em frente da farmácia. Mas, como o amor é capaz de fazer loucuras, o Catraca foi ficando mais ousado. O Alfredão acertou para os dois se encontrem no circo.   

 

Conversando num bar, foi convencido a ir até a farmácia, como um cliente comum, e comprar qualquer coisa, apenas para marcar uma presença. Enchendo-se de coragem, ele entrou no estabelecimento e pediu um Sonrisal.

            É pra tomar aqui? – perguntou a solícita funcionária. O pobre apaixonado fez que sim e, recebendo o copo com água, rasgou, não sabe como, o envelope, as danadas das mãos tremendo. E daí... o vexame! O nervosismo tomou conta, ele começou a por os pés pelas mãos. Que fazer com o comprimido? E veio o pior: Atrapalhado pela tensão nervosa, não é que o Zé Catraca colocou o comprimido todo na boca? Virou uma espumeira danada, uma situação entre engraçada e embaraçosa. Mas, que acabou bem, hoje o Zé Catraca e Dona Maria são casados, têm muitos filhos. São membros da sociedade.

(nota – O livro Causos de Batayporã foi publicado em 1992)

 

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Sonho

Na verdade, quando uma cidade começa a ser construída,existe aquele constante vai e vem, pessoas que chegam e que vão. Peões, andarilhos, com seus galos de briga, aparecem por temporadas, se integram, participam... depois vão embora. Por isso é provável que alguns nomes não sejam mencionados, traídos que foram, os pioneiros, pela memória. Mas a intenção é menciona-los a todos.

Há quem diga que as pessoas que se sentem muito felizes não sentem a necessidade de ter amigos, de viver em sociedade, integrado. E, mesmo numa cidade que engatinhou em busca de seu futuro, os primeiros homens dessa terra também eram assim. E uma coisa é certa: Bons momentos são sempre lembrados. Mesmo que, quando acontecem, não parecessem ser tão bons. E os homens também têm saudades...

O tempo foi passando, e com a chegada sempre constante, de muita gente, as plantações de café, tudo contribuía e, de repente, com tanta animação, uma idéia começou a surgir, e, mais que uma idéia, uma necessidade. Não havia um clube na cidade, onde se pudesse realizar promoções Começaram a ser organizadas reuniões, até que um grupo de cerca de vinte e poucas pessoas resolveu levar a idéia avante. Citando alguns: Diogo, Gonçalo, Zuada, Bagage, Laurindo, seu Henrique, Zé Mustafá, Delmiro, Arlindo Ramos, entre outros. Esse clube existe até hoje e nele que ainda se realizam os bailes da cidade. Lógico que já foi fundado o novo Tênis Clube, com sauna, piscina, essas coisas todas de cidade que evolui e, quando ele estiver pronto, se dará o descanso justo ao heróico ao Tênis Clube de Batayporã.

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Teatro

Muito tempo depois, os causos são contados, de forma divertida ou não, mas sempre com muito respeito, que é o que merecem os pioneiros. Num momento que não vai tão longe assim, a Vilma e sus irmãs, filhas do seu Madalena, montaram um grupo teatral, que tinha como membros os atores Zé Rezende, um dentista, o Dr. René Molinedo, João Mourão, Dário Trachta, Dalibor, Vilma, o Vagner, Luz Marina, Sônia, Elizena, Professor Benedito e tantos outros. Já mais recente, tanto que parece ontem, a Professora Luiza tentou outro grupo, mas apesar do entusiasmo, é muito difícil levar avante um projeto desses, se não houver total colaboração.

No tempo dos antigamentes, quando se vivia à luz de lamparina, quando se sonhava ao som do serviço de auto-falante, quando a televisão ainda não existia, já havia gente interessada em fazer teatro em Batayporã. Lógico que ninguém tinha lá muita aptidão nem sequer noção de montagem, efeitos, etc...

Mas a necessidade de se preencher o tempo com coisas boas, construtivas, animou todo mundo. E quem viu a peça, reconhece: Foi muito bonita. Uma comédia, estrelada por Pindurinha, Zé Pernilongo, Bico Doce, Antonio Morão e outros. Tomara que tenhamos gente com tal despreendimento sempre, por aqui.

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As pessoas ouviam dizer que o Mato Grosso era um sertão, que havia onça, jagunços... Em parte, verdade, em parte... imaginação! Quando o velho Mamede chegou aqui, vindo do Estado de São Paulo, mais precisamente, de Mariápolis, com a esposa, Dona Antônia e as duas filhas, pararam às margens do ribeirão Esperança. Um mês depois, veio o Zé Mustafá. Não havia mais ninguém na cidade. Algum tempo depois, apareceu o Ataliba Ramos. As pessoas interessadas em comprar terras vinham em cima de caminhões, onde se colocava tábuas em bancos improvisados.

O engenheiro da Cia. Viação marcava o rumo das divisões dos lotes e os picadeiros faziam o traçado. Quando os interessados em comprar chegavam, iam ao rancho do velho Mamede, que era grande, comprido, aberto dos lados. Dona Antônia era quem fazia a comida pra todos.
Daí, alguém ia mostrar os lotes. Foi um começo difícil, não resta dúvida, mas que deixa um lampejo de saudade nos olhos de quem o viveu.

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Tatu

Toda quarta, sábado e domingo, o Osvaldo Monteiro ia de bicicleta, de noite, namorar a Anita, na Lagoa Bonita. Aquilo era sagrado! Dava seis horas da tarde, lá ia ele, perfumado, banho tomado, roupa limpa, pro namoro. Numa noite, quando estava voltando pra casa, cerca de uma da manhã, em frente às Três Cruzinhas, que demarcavam onde haviam morrido três homens de uma vez só, num desastre de caminhão, estava escuro como breu! De repente, no meio da estrada, atravessa um tatu e o pneu da bicicleta... pôu! Assustado, o bicho saiu correndo, o tranco derruba a bicicleta com Osvaldo e tudo, se pinchando no areião!
Assustado, pensando tratar-se de algum animal perigoso, uma onça, quem sabe, Osvaldo correu uns bons trezentos metros, num preparo físico que contou com a colaboração do susto e do fungado do tatu. Só algum tempo depois, meio arisco, ele se animou a pegar a bicicleta, suando frio. Mas, o perigo valeu a pena: Hoje Osvaldo e Anita são casados.

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Caçada de patos

Dois oficiais de justiça de Nova Andradina, que estão sempre em Batayporã, são amigos de todo mundo, muito queridos, o Grande e o Sabá. Afora o serviço, do que mais gostam é de uma pescaria, uma boa caçada, um churrasco com os amigos na hora de folga, etc. Há algum tempo atrás, nessas mudanças que de vez em quando se fazem nos quadros da justiça, foi designado para a comarca um novo magistrado. E, sabe como é, entre superiores e subordinados há uma fraternidade muito bonita. Ocorrer de se fazer uma reuniãozinha para dar as boas vindas ao novo membro. Por volta das dez horas da noite, encerrando a reunião num restaurante, Grande e Sabá descobriram que o homem gostava muito de caçar patos.
Ora, disseram entusiasmados – Que coincidência! Nós também nos amarramos numa caçada e justamente sabemos de que tem um lugar que é o canal para se caçar patos! E não fica muito longe, não! Se o senhor quiser, podemos ir amanhã mesmo!
E trataram de acertar a caçada. Mas deixaram bem claro, experientes que eram em tal ofício, que para conseguirem sucesso, teriam que estar no local bem cedo, ainda escuro, pois se não fosse assim, se chegassem na lagoa com a luz do dia, os patos os veriam e fatalmente fugiriam. Tudo acertado, marcaram um lugar pra se encontrar, o mesmo restaurante, que tinha um bar permanentemente aberto, a noite toda. Só que Grande e Sabá, ao invés de irem dormir, ficaram conversando fiado, tomando uns goles, contando piadas, jogando conversa fora. Quando o doutor chegou, ficou admirado com a pontualidade dos dois, que agüentaram firme. Para ajudar a espantar os mosquitos, explicaram, levaram um litro de conhaque. Já na lagoa, acertaram os detalhes:
Vamos fazer o seguinte: Nós vamos ficar debaixo daquela árvore ali, o senhor dá a volta e se posiciona sob aquela, do outro lado. Como só existem essas duas, assim que os patos forem chegando na nossa árvore, a gente os espanta e fatalmente eles voarão para cima do senhor. Assim, é só mirar e puxar o dedo.
E assim fizeram. Ainda estava bastante escuro. Mas, como haviam ficado a noite toda sem dormir, Sabá e Grande, vencidos também pelo bendito conhaque, não resistiram à grama onde tinham se recostado debaixo da árvore, e puxaram o ronco. O dia amanheceu e os patos foram chegando aos bandos. Do outro lado, o doutor esfregava as mãos , impaciente, louco pra dar uns tiros, conseguiria um belo almoço. Mas, o tempo foi passando, passando, deu oito horas, nove... A árvore ficou preta de patos, e nada. Então, pistola da vida, o doutor saiu do seu posto e foi verificar o que tava acontecendo, por que os dois não espantavam os danados dos patos. E, não é que, chegando lá, viu os dois, ainda esparrachados, dormindo como dois anjinhos? E você sabe que pato é uma ave danada para cuspir, para... bem, você sabe... fazer cocô. Imagine então o estado em que se encontravam os dois caçadores. .. Quando o Zé Mustafá toca no assunto, todo mundo ri, divertidos.

 

 

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O Farofinha (Otávio), filho do seo Osvaldo e dona Francisaca, moravam com os pais numa casinha nos fundos da casa da Dona Marina. As pessoas, até por um que de necessidade de se comunicar, se falar, de ser amigos, eram sempre amigos. Um dia o Farofinha apareceu com um calo inflamado na mão, pra Dona Marina curar, pois ela sempre tinha medicamento, gaze, esparadrapo, mercúrio, etc. Depois, diariamente, voltava para os curativos. Quando a infecção foi curada, Farofa perguntou quanto era. Como Dona Marina nunca cobrava tais serviços, o menino, na época com nove anos (hoje Farofinha já é avô), foi embora. Algum tempo depois, ei-lo de volta, meio tímido, como o é até hoje, e disse:
Já que a senhora não quis cobrar nada, deixa eu ficar aqui, morando com a senhora?
Bem, - Dona Marina estava um pouco surpresa, quis ganhar tempo – isso não depende de mim. Vou falar com seus pais. Se eles concordarem, tudo bem.
Os pais concordaram e ficou tudo acertado. Otávio passou a ser praticamente da família, uma espécie de irmão mais velho das crianças.
Otávio, o Farofinha, que você vai aprender a admirar e gostar, pois ouvirá falar dele várias vezes, é moreno, não muito alto, olhos grandes e um ar de inteligência. Mas havia nele uma característica ímpar. Era sempre muito simples, não conseguia ver malícia nem maldade nas coisas que lhe diziam. Era um crédulo ao extremo. E outro detalhe: Uma doença, quando criança de colo, causou-lhe um defeito no pé direito, que ficou torto, a sola pra dentro, que o obrigava a pisar com o lado do pé e mancar ligeiramente. Mas tal detalhe nem era notado pelas pessoas que o rodeavam, pelos seus amigos. Um dia, e não faz tanto tempo assim, na enorme casa onde atualmente mora a Dona Marina do Cartório, como acostumavam chama-la, o Farofa já era casado, pai de filhos quase adolescentes, aconteceu um episódio. Descobriram num quarto da casa, numa despensa, mais precisamente, uns rojões de vara. Pra que! Vamos soltar, não vamos, vamos... mas ninguém se arriscava, pois no tempo de fogueira, quanso se soltavam os buscapés, eles saíam doidos pra tudo que era lado. E se aquele buscapé de Itu cismassem de sair pro lado da gente?

Por fim, resolveu-se o impasse, depois de confabularem, e ficou estabelecido que Farofinha era o voluntário forçado que iria atear fogo ao rojão. Era já de noite, acertaram a coisa: Farofinha levaria o rojão no outro lado da rua, em frente à casa, espetaria a vara na terra fofa que ao passar do dia a moto-niveladora havia deixado nos lados da rua, de maneira que o rojão, quando acionado, estivesse apontado para cima e para longe, no sentido da casa do Zé Suíço, lá do outro lado do quarteirão. Muito bem! Todo mundo cúmplice na maior expectativa, a criançada roendo as unhas, seo Henrique até deixou a revista que lia, pra ver, Mas, o danado do rojão, ou não ficou bem fincado ou o Farofinha, na tensão nervosa, não espetou direito. O pessoal ficara na varanda, observando com algum receio. Enchendo-se de coragem, depois que todo mundo se preparou ((de longe, era melhor precaver...), riscou o fósforo e o encostou no rojão. Quando apareceu a primeira faísca, o corajoso Farofinha saiu correndo, ele próprio como um foguete, para o outro lado da rua, em direção à varanda da casa, mas... fracasso! Foi apenas um alarme falso. Por fim, duas tentativas depois... shiiiii... !!!!O rojão tava queimando! Tratando de correr, que não era bobo, eis que para a surpresa de Farofinha e de todo mundo, o diabo do rojão inventa de mudar de rota e veio disparado no rumo da casa. Pra que? Menino!, foi um Deus nos acuda, gritaria, choro, empurrões, um salve-se-quem-puder danado! Pois não é que o Farofa, esquecendo-se de que a tendência do rojão é subir, foi escolher para se salvar do ataque, justamente um pé de flamboaiã, onde subiu o mais rápido que pôde, como um macaco, tremendo feito vara verde. Para a salvação da pátria, num golpe de sorte para todos, o malandro do rojão se desviou no último instante, subiu lá bem alto e explodiu num pipoco estrondoso, que parecia um riso divertido com o medo que provocara em todos. A Juca, na correria, tinha ido parar na cozinha (e olha que a casa era realmente grande!), gente dentro dos quartos, debaixo das mesas, outros estirados no chão... Depois do caso passado houve uma generalizada histeria, os risos primeiro de nervosismo, depois, uma gargalhada só. Para o segundo rojão, todo mundo fez questão de se certificar de que o bandido estivesse mesmo bem espetado na rampa de lançamento. Ainda assim, precavidos, todos ficaram apenas com os olhos à mostra, escondidos atrás do parapeito da varanda. Mas não aconteceu novo imprevisto. Farofinha estava aprovado na função de fogueteiro.

 

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Um acontecimento bem recente: O pessoal da Exatoria, de vez em quando faz cursos, ora em Bataguassu, ora em Campo Grande. Num desses, na capital, foram o Osvaldo Monteiro e o Zé Mustafa. Hospedaram-se num hotel e à noite, cansado, o Zé Mustafa foi dormir primeiro, enquanto o Osvaldo, que ficara conversando com algumas pessoas, resolveu tomar banho. No outro dia, Zé Mustafa é acordado pelo Osvaldo:
Ei, Zé, acorda, tá na hora! E faça o favor de devolver as minhas calças que você escondeu!
E não adiantou nada o companheiro jurar por tudo quanto é santo de que não havia escondido nadaSabendo o quanto ele era dado a essas coisas, Osvaldo não acreditou. Obrigou-o a se levantar, procurou debaixo da cama, do colchão, dentro da mala dele e nada das calças aparecerem.
Pois eu tô falando, Osvaldo. Eu não peguei nada, garantiu Zé.
Como não pegou? Claro que pegou! Cadê elas? Criaram pernas, é? Larga de frescura, Zé, a gente vai se atrasar prô curso...
Mas eu não peguei... Aliás, já tava dormindo quando você veio do banho.
E o Osvaldo, só de cueca, já estava começando a perder a paciência, o tempo passando, o curso os esperava.
Só se você esqueceu no banheiro – tentava Zé Mustafá, Dessa vez ele não tinha nada a ver com o peixe, mesmo. – Acho bom a gente procurar com a dona do hotel...
Não, senhor! Não vem com desculpa, não! – atalhou Osvaldo. – Sei muito bem como você é! Quem não te conhece é que te compra, negão!
Nisso, o Zé Mustafá foi sair para escovar os dentes. E apareceram as calças do Osvaldo! Eis como aconteceu: Aporta do hotel abria pra dentro. O Osvaldo se despiu para o banho, colocou a camisa na cabeceira da cama e pendurou as calças no trinco da porta. Quando voltou do banho, o detalhe das calças penduradas no trinco da porta passou desapercebido. Fechando a porta, lógico que as calças ficaram do lado de fora. Ao abrirem a porta, as viram. A sorte foi que ninguém roubou, nem o que tava nos bolsos!

 

 

Banho no Corgo

Um dos primeiros automóveis da cidade era do seo Joãozinho, que tinha escritório. Um dia, a turma resolveu tomar banho no Samambaia, tava muito calor. Como o lugar ficava na ponte da fazenda do Ênio Martins, pediram que seo Joãozinho os levassem com o Ford ano trinta e seis, preto, uma lindeza de carro!

O Zé Mustafa tava junto. O banho, claro, foi ótimo, mas na volta, aconteceu o imprevisto: Depois de uma lombada, na descida do Córrego Escondido, o fato: Na hora de mudar a marcha, o câmbio, certamente duro, por falta de graxa, ingripou e a marcha, nada de entrar. E agora? Breque, que era bom... nécas. O carro despinguelou na toda!

Por azar, lá embaixo havia uma porteira e se o carro batesse nela, ia ser aquela bagaceira! Entre gritos assustados, a solução: Antes de chegar à porteira, o seo Joãozinho deu uma guinada, jogando o carro no varjão seco, uma floresta de tabôas. Pra sorte de todos, não havia cerca no lado da estrada, e depois de sair da poeirama de painas, restou como saldo, apenas muita força pra tirar o automóvel do varjão e, é claro, o susto!

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Do livro Causos de Batayporã

O Yanes tinha duas tias bem velhinhas, que andavam arqueadas, peso da idade. Eram muito parecidas uma com a outra, apesar de não serem gêmeas. Inclusive até no jeito de
Se vestir, eram iguais, Até o cocó na cabeça, era igual! Uma delas morreu. No velório, alta madrugada, a irmã estava dormindo num quarto e as outras mulheres, entre elas a Dona Geni, que foi servente da escola por muito tempo, foram para a cozinha. Entre um cafezinho e outro, entre conversas típicas de velório, foram se distraindo, se distraindo... quando, de repente, a irmã, coitada, acordou e sentiu vontade de ir ao banheiro. Como o quarto ficava anexo à sala, ela teve de vir no sentido da sala para o corredor e a cozinha. Ah, cristão bendito, nem te conto nada! A Dona Geni ia levando uma xícara de café à boca, quando, erguendo os olhos, deu com a velhinha andando em direção à cozinha! A reação foi imediata: Pelo próprio clima, além da semelhança física, nem titubeou! Era a defunta que tinha levantado e vinha ao encontro dela! Perdendo a fala, a xícara, espatifando-se. As outras, estranhando o fato, viraram a cabeça. Pra que? Foi a mesma conclusão! A defunta tava de pé! Numa fração de segundos começou uma gritaria, aquela mulherada correndo porta afora, para o quintal escuro, aos berros! A pobre da velhinha também se assustou tanto que até passou a vontade do xixi. Muito tempo depois, ressabiadas, receosas, depois que a velhinha se identificou, afirmando também aos berros que não era ela que tinha morrido, que a outra tava lá bem morta, coitadinha, esfriando, na sala, foi que elas voltaram para a casa, uma a uma, trêmulas de susto. Depois disso, não foi mais preciso café nenhum pra espantar o sono.

 

 

 

Do livro Causos de Batayporã

Por fim, vem o grande dia! O Zé Mustafá era quem mexia com o time (não se chamava ninguém de técnico). E quem é que era técnico? Até algum tempo atrás, o importante era ter alguém que tocava o time, tratava jogos, etc. E foi acertado um jogo, contra a Primavera. O primeiro jogo de bola em Batayporã, um acontecimento social e histórico! Uma emoção, sem dúvida, e ninguém se importava se o time não tinha uniforme. Jogaram apenas de calção, alguns descalços, outros de pé-de-cachorro, outros ainda apenas com um calçado, outros de sapatão, daqueles testa-de-touro, mas nada disso tirava o entusiasmo dos briosos atletas batayporaenses. O juiz, depois de muita deliberação, pois quase todo mundo tinha que jogar, foi escolhido. O Zé Vieira, que tomava conta da Olaria. Na verdade, hoje já se pode admitir, ele roubou pra chuchu, mas o mais importante mesmo, é que mesmo tendo o time da Primavera entrado em campo bonitinho, todo uniformizado, com aquelas chuteiras que subiam pelos tornozelos, o time de Batayporã venceu por dois a um. Além do próprio Zé Mustafá, que era o dono do time, o que tomava conta, jogaram, entre outros, Otacílio, o Dionízio (os mesmos que ainda moram por aqui), o Doca, Ditinho, entre outros. No cascudo jogou o Cobra Choca, que apesar do nome curioso, era uma promessa. E ficou mesmo só na promessa. Você terá outras grandes histórias sobre o futebol daqui, que sempre se destacou, teve grandes e inesquecíveis times. E podemos aproveitar para bater no peito, cheios de orgulho: tivemos o maior jogador de todos os tempos, na região, e que ainda mora aqui, felizmente. O grande Roque, de tantos momentos inesquecíveis. Falaremos mais sobre futebol, pode apostar.  


Do livro Causos de Batayporã

Como naquele tempo não havia muita coisa por opção a ser feita, a não ser trabalho e trabalho, era até natural que os homens procurassem um relacionamento mais freqüente. Não havia nada melhor que tomar umas pingas após o dia duro, e de modo geral, era isso que se fazia. Para se ter uma idéia, o único rádio que havia na região era o do seo Anésio, que morava no Pau Queimado. Várias e várias vezes o Zé Mustafá percorria a pé os quase cinco quilômetros no domingo, pela estrada feita na base do enxadão, para ouvir os jogos de futebol. Falando em rádio, é lógico que com o tempo foram chegando outros aparelhos. Em grandes caixas, eles preenchiam grande parte do tempo ocioso, com suas pilhas enormes, maiores que eles próprios. E após ouvir o programa favorito, tratava-se de desligar o rádio, a fim de não gastar a pilha, pois, senão, necas de rádio! Só de mês em mês, poderiam encomendar outra.
Um dia, surge a idéia maravilhosa: Vamos fazer um campo de futebol, assim, nos domingos podemos ter uma distração. Da idéia à prática foi um pulo e não foi difícil reunir os amigos para o mutirão. Com foices, enxadas, machados, providenciaram o campo por ali onde fica a Lagoa do Sapo. Roçavam o sapezal, botaram fogo, outros procuraram no mato algumas árvores roliças que fossem retas e altas, com forquilhas nas pontas e logo as traves estavam prontas. Mas, em meio a tanto entusiasmo – o campo estava roçado, e com as traves dos gols – aparece o detalhe: Uns quatro murundus enormes justamente no meio de campo. E agora? Daquele jeito não daria pra jogar! Então o Zé Mustafá resolveu procurar a Dona Marina, e pede pra que ela fale com o Walter Hubacher, da Moura Andrade, encarregado das máquinas. Como sabia que o homem gostava de uma cerveja, diz que, caso ele mandasse o trator da firma arrancar os monturos, lhe daria um saco de cerveja. Pois foi fácil! Em menos de uma hora os murundus não existiam mais, o campo parecia um tapete! Foi uma lindeza, aquela terra dura, plaininha... Claro, promessa feita, promessa cumprida! Naquele tempo, cerveja não vinha em caixas, como hoje. Vinham em sacos de estopa, protegidas por palha, estrategicamente espalhada.

 

Do livro Causos de Batayporã

Não se quer afirmar que a vida dos pioneiros era um mar de rosas, ao contrário, havia sempre alguma dificuldade. Às vezes se passava até por necessidades, embora houvesse dinheiro. Por exemplo: O velho Mamede, que tinha filhos menores (a Leila e a Fátima eram crianças pequenas), às vezes os ouvia pedindo pão e não tinha como atende-los. Então, saía em busca da rota dos ervateiros paraguaios que naquela época eram freqüêntes, em busca de mandioca. Arrancava uns dois pés, que trazia pra casa e a Dona Antônia cozinhava. Assim, quando as crianças pediam pão, dava-lhes mandioca.

 

 

Do livro Causos de Batayporã

Uma, rápida: Hoje, no Carnaval das cidades grandes, as mulheres aparecem praticamente peladas! Aqui em Batayporã, já se arrisca um bustiê austero, sóbrio. Antigamente, nem shorts se permitia. E pensar que certa vez o então Prefeito Manoel Leite proibiu os jogadores de vir do campo, só de calção! E não há que se rir, era a formação da época, fazia parte dos costumes! Mudou, é verdade, e é por isso que as pessoas têm uma grande capacidade de adaptação. A vida não é uma emoção definitiva.

 

Do livro Causos de Batayporã

Hoje temos asfalto, não temos? Então, ouça e diga se acredita: Houve um tempo, ainda bem recente, em que a molecada pescava lambari, cará, sabe como? De peneira, na enxurrada em frente ao armazém do seo Mané Lebre, já falecido. E mais uma, bem rápido: Em frente ao antigo Banco Financial, havia um Fusca parado, do Paulo Adonay, que foi coletor aqui. Pois, quando ele saiu do Banco e abriu a porta, não se sabe como, mas a verdade é que não foi ninguém que jogou: Havia um peixinho no banco do carro, se debatendo! Dá pra acreditar? Você pode até pensar que é uma mentira cabeluda, mas não é. Quem não ouviu falar na famosa Lagoa do Sapo e daquela temporada de grandes chuvas? Se quiséssemos enfatizar muito, diríamos: Vi com esses olhos que a terra há de comer!, não é assim que se diz? Mas, creia, é verdade!

 

 

Do livro Causos de Batayporã

Quando se jogava bola, por aqui, ainda de pé-de-cachorro, uma certa tarde inventaram de ir treinar, dois craques: O Romero e o Antônio Bom. Um contra o outro. Na verdade, é bom que se diga, o Romero nunca foi mesmo de jogar bola, mas, como corria muito, e tava descalço, dentro de cinco minutos tava sem um bom pedaço do couro da sola dos pés. Depois, houve uma dividida no meio de campo. Veio o Antônio Bom de cá e o Romero de lá, os dois se mordendo pra ganhar a bola e entraram rachando! Só se ouviu o estalo! A trombada foi tão violenta que jogou os dois longe! Imediatamente surgiu um calombo na testa do Romero, que ficara tonto. Depois que ficou novamente lúcido, tomou uma decisão que segue até hoje: bola? Nunca mais!

 

 

Do livro Causos de Batayporã


Os rapazes solteiros moravam em repúblicas, principalmente aqueles que não tinham parentes por perto. Lá, eles queimavam lata, lavavam suas roupas, quer dizer: não era assim... lavar!!! Lavavam, como Deus deixava, uma lavada matada que dava vergonha. Numa dessas repúblicas, moravam, entre outros, o Custódio (você sabia que quando ele jogava bola, em Bataguassu, tinha o apelido de Costela?), e o Ailton, que trabalhava no escritório da Cia. Viação. Numa tarde, conversando, muito calor, o Ailton fez uma proposta: _ Você duvida, Custódio, que eu seja capaz de sair pelado, lá no meio da rua? _ Duvido, imediatamente, o Custódio atiçou. Naquele tempo, nem era muita vantagem, já que havia muito menos gente que hoje, mas, é claro, sempre podia acontecer de passar alguém, não é mesmo? _ Quer perder meia dúzia de cerveja geladinha, se eu sair peladinho da silva? Custódio aceitou a proposta, com um sorriso meio estranho nos lábios. O Ailton, não esse Ailton que é prefeito de Bataguassu, pois bem, certamente com muita cede, resolveu ganhar a cerveja. Tinha acabado de tomar banho, tava apenas com uma toalha enrolada na cintura. E, claro, pra não ficar feio, uma vez que tinha sido ele mesmo que havia insultado o outro, resolveu mostrar coragem. Cautelosamente, colocou a cabeça fora da porta, olhou prum lado, pro outro... ninguém! Muito bem. Jogou a toalha e saiu correndo em traje de Adão, ficando no meio da rua, e se rebolando, fazendo fusquinha para o outro, com ares vitoriosos. O Custódio, sorrindo, encolheu os ombros, como se dissesse: O)kei, você venceu! Mas, quando o Ailton foi desconfiar, já era tarde. Sempre sorrindo, o Custódio... blam!, fechou a porta, deixando-o do lado de fora. Foi um sufoco!

Eurico Félix

 

 

 


 



Do livro Causos de Batayporã


Um dia, na casa do Eurico, estavam assistindo um jogo na televisão o Dário, Evandro, Eurico, Luizinho e seu pai, o Romero. Todo mundo prestando atenção danada ao jogo, sentados nos sofás. De repente, o Romero se mexe no assento, a ponto de chamar a atenção dos outros, menos do filho, que continuava preso à televisão. E o Romero, deixando o jogo de lado, começou a olhar para os pés do Luizinho e foi aos pouco se curvando, se curvando...e os outros o imitando... até estar bem próximo dos pés do filho. Então, com ares de quem descobre um comspiração, ele desabafa: "Mas, Luizinho, seu molequinho sem vergonha! Meu sapato novo, que comprei em Presidente Venceslau! Eu não uso e é por isso que ele tá gastando... mas que moleque! Foi uma explosão de gargalhadas".
Eurico Félix


 


 



Irmãos


O XV foi jogar pelo Campeonato, no Assentamento. A uma certa altura, o Mineiro, que já tinha recebido um cartão amarelo, recebeu mais um e o vermelho. Então, veio a estratégia: Não, professor, eu ainda não tenho amarelo, você deu para o meu irmão ali... E apontou para o Jorge do Diogo, que confirmou. Naquele tempo, eles eram mesmo parecidos de rosto, pois usavam o mesmo tipo de bigode. O Neguinho, que era o árbitro olhou para o Jorge, olhou para o Mineiro... e falou: Tem razão. - E deu de novo o amarelo para o Mineiro. Ninguém saiu do jogo, mas no outro dia o Neguinho saiu da carreira de juiz. O Ney Olegário o tirou.

Eurico Félix

 


 



Harley Davidson

Certa vez, o Ailton Genésio, que ganhara uma moto daquelas mais famosas de todos os tempos, uma Harley Davidson (nem sei se é assim que se escreve) estava comemorando com amigos, no Bar do Zé Maria. Lá pelas tantas, de tanto um amigo insistir, resolveu dar uma volta, com ele. Mas, no entusiasmo da moto nova e no embalo de algumas três ou todas... bebidas, a arrancada foi meio brusca, e o carona, desprevinido, virou as pernas prô ar e caiu no chão. Não andou vinte centímetros! Melhor que ninguém se machucou, mas todo mundo riu muito.

Eurico Félix

 

 

 

 

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